A conversa no coletivo.

    Todo dia embarca no ônibus às cinco da tarde. E lá vai ela para a faculdade, toda jeitosa, perfumada e atraente, com os lábios bem vermelhos com seu batom de morango. Com a calça colada, a blusa provocante e os cabelos soltos ainda um pouco úmidos e com o cheiro do seu creme hidratante.

Ela entra no coletivo com o livro de estudos na mão. Procura com o olhar um lugar para se sentar, o difícil é ela não chamar a atenção.  Até que um suposto cavalheiro cheio de boas intenções lhe oferece um lugar. Ela sorri agradece o cidadão e começa a estudar o capítulo do livro em questão.

O gentil homem em pé a seu lado já não se contém, aquele sorriso encantador e o perfume doce da moça lhe tomam os sentidos, e de maneira tímida e ridícula ele puxa um diálogo: “Está estudando?”  A moça levanta a cabeça levemente e sem pronunciar uma palavra apenas sinaliza com a cabeça que sim.

O bocó, mais envergonhado ainda, insiste na conversação: “É um livro, né?” A dama cheirosa, educadamente respira e diz: “Sim, ainda não tenho dinheiro para comprar um e-book. Eu preciso ler este capítulo, pois terei que apresentar um resumo oral sobre o ensino deste material na aula de hoje.” Não entendendo o “chega pra lá”, o paspalho pertinaz insiste na conversa.

“Certamente você deve ser muito estudiosa e dedicada naquilo que faz.” Diz o homem. Entendendo que nada que disser vai fazer com que a matraca pare de falar, ela resolve se envolver no assunto do bocó.

“É, na medida do possível, procuro levar os meus professores e tudo o que eles ensinam a sério, pois poderá fazer diferença para mim amanhã na disputa no mercado de trabalho.”
Para a sorte do homem, a mulher sentada do lado da princesa se levanta, e o cidadão mais rápido que um raio toma posse do assento.

“Então,” continua ele, “como é estar na faculdade? Bem, imagino que está indo pra faculdade, certo?”

“Sim, certo. Olha, é bom, mais a minha turma é um porre!”
“Sério?” pergunta o homem.

 “Sim!” responde ela. “Não querem nada com nada, azucrinam as aulas, não prestam atenção, levam tudo na brincadeira, atrapalham a quem realmente quer aprender com os ensinamentos passados. Sinceramente, estou cansada!”

“Nossa, mas que chato! Que pena que é assim na sua turma. Não tem um jeito de melhorar?” diz ele.

“Os professores até que tentam,” continua ela, “mas infelizmente o povo é muito desligado.”
O ônibus vai sacudindo de um lado para o outro. Aproveitando-se da situação, o homem se joga ainda mais para cima da donzela nas viradas de curva do transporte. Fazem alguns segundos de silêncio, mas logo, logo o rapaz retoma a conversação: “Então, a faculdade em que você estuda, oferece bons conteúdos para o ensino?”

“Sim, quanto a isso, não há o que reclamar. Todos os materiais que são exigidos em aula, a biblioteca tem para dar suporte. Quanto a isso, não tenho mesmo o que reclamar! O que me aborrece e me deixa passada é ver que as pessoas poderiam aproveitar melhor o conteúdo de cada aula ministrada, mas não: ficam de bate papo. E detalhe: papo mais que furado! É lamentável, sabe. Vejo que são pessoas que poderiam vislumbrar grandes conquistas se por acaso tivessem um pouco mais de seriedade nos seus afazeres”.

“Puxa, deve ser monótono para você estar em um lugar assim, onde não há interatividade, né? Sabe, eu sempre quis entrar na faculdade. Mas me faltava um incentivo, alguém que me inspirasse e me envolvesse profundamente com os estudos. Penso que há cada grau de ensino alcançado evolui-se mais a mente humana.”  O homem que antes tímido e bocó, do nada torna-se um filósofo. Veja o que faz uma bela mulher!

 E ele continua: “Você é casada? Tem filhos? Namorado?” a moça olha para ele com ironia e responde com uma pergunta: “Por acaso você é repórter? Olha, quando você for entrar na faculdade faça o curso de Comunicação Social, garanto que leva jeito. A respeito das suas perguntas, não sou casada, não tenho filhos e tão pouco um namorado. A faculdade me toma muito tempo, são horas e horas de dedicação aos livros de estudos, me aprofundo muito nos livros de pesquisas para que eu possa absolver melhor cada ensinamentos. E ainda tenho o meu trabalho. Resumindo, a minha vida é trabalho, faculdade e casa.”

 O homem, sentindo que foi jogado para a linha lateral, dá um sorriso amarelo e sem graça, quando de repente o ônibus, com um movimento brusco, lança a moça em seus braços. Ele pensa consigo mesmo: “Hoje a maré está pra peixe”.

 A moça se desculpa e se recompõe em seu lugar. Aproveitando-se da situação, o agora destemido homem arrisca-se e faz um convite: “Sei que é uma moça muito prendada, mas gostaria de tomar um suco comigo e conversar sobre assuntos que sejam de seu interesse, ou quem sabe assuntos que não lhe interessam para podermos nos conhecer melhor e trocar informações, nos tornarmos amigos e consequentemente futuros namorados?”

A moça agora se espanta e com um olhar profundo rir e diz: “Hahaha, mas você hen? Bem, seria interessante distrair um pouco a mente, deixar de lado um pouco os estudos e os trabalhos que me sugam na faculdade. Aceito o seu convite, vai ser um prazer! Mas agora tenho que ir, o meu ponto chegou. Tenho ainda que embarcar em outra condução.” Ela dá um beijo no rosto do rapaz e desce.

Ele continua no coletivo, pensando mil coisas. O ônibus se movimenta, ele pega o celular e liga para um amigo para comunicar a sua conquista. O amigo atende: “O que quer seu mala?” E ele responde: “Aí meu irmão, tenho um encontro com a maior gata! Uma mulher linda, cheirosa, corpo de violão, cabelos lindos, ela é toda mil, meu querido. Quero ver tu me zoar agora hahahaah. Detalhe  faz faculdade, é estudiosa e tenho certeza que vai me promover altos ensinos na didática do amor. Aí malandro tu vai babar”.

O amigo interrompe e diz: “Essa eu quero ver, maninho. Até que em fim tu vai desamarrar esse bode, hen? Vai tirar o pé da cova, ah moleque! Já vai sair uma criança pronta daí, ô meu! To feliz por você, brother, mais me diz aí: quando é o encontro?”

O homem, que estava empolgado, desmorona e diz: “Caramba, Eduardo, esqueci de perguntar o nome dela e pegar o número do telefone. E o pior nem o curso que ela faz, nem a faculdade em que ela estuda.” O amigo dá altas gargalhadas do outro lado diz: “Mas é um Juca Bocó mesmo hen!”

Crônicas de Márcio Nato