O ovo do Zé


Zezinho saiu cedo de casa para ir para o trabalho. Chegou ao ponto de ônibus que, por sinal, já estava repleto de outros cidadãos que deixaram o seu sono, mal acabado, para assim irem à busca de seu pão de cada dia.

Ele olhou para lado e viu que ali ainda tinha muita gente sonolenta, com o rosto inchado, e também, bocejando. E na verdade mesmo, todas elas, gostariam de estarem na cama.

Não demorou muito e veio logo o coletivo barulhento e sucateado. Quando o ônibus vinha era fácil de saber. Pois, bastava olhar para o céu e ver o mundaréu de poeira e fumaça negra que o pedaço de lata velha desregulada vinha espalhando.

Zezinho, com a sua marmitinha, entra na “tranqueira” e como um verdadeiro cavalheiro deixa as damas e os mais velhos seguirem em sua frente. As pessoas passam na roleta e pagam as passagens, já o Zé pacientemente espera a sua vez de subir para o ônibus.

Ele põe o primeiro pé no degrau do latão enferrujado e o motorista louco para cumprir o horário da partida na geringonça. Zezinho se equilibra, firma o outro pé e se segura nas ferragens e vai.

A estrada é esburacada e cheia de costelas, o que faz o velho meio de transporte trepidar e sacudir. Zezinho ainda esta preso no curral antes da roleta, até que, finalmente chega à vez do “guerreiro” atravessar...

Ele pega sua bolsinha com marmita e apóia na roleta, enfia a mão em um dos bolsos para pegar o dinheiro e assim pagar a passagem. Nessa hora o velho ônibus passa em buraco que mexe com todos dentro, Zezinho se desequilibra e deixa a sua marmitinha cair no assoalho do transporte. Ao cair a cambucá de alumínio do Zé faz um barulho diferente, que desperta a atenção de todos, e até mesmo assusta o condutor do veículo.

O motorista freia bruscamente o ônibus. Os passageiros observam a mistura que fazia parte do almoço de Zezinho indo pulando e rolando para frente do coletivo. Era um ovo cozido que estava junto do arroz e do feijão que o Zé iria papar na hora da refeição.

Zé, vermelho igual a um pimentão, todo sem graça e envergonhado sem saber o que fazer para se livrar daquela situação constrangedora apenas disse: “Olha, esse ovo estava bem cozido! Pois,  nem rolar rolou foi pra frente quicando sem parar”.


Poesias & Crônicas de Márcio Nato