Não vou parar em frente ao portão

Eu não vou chegar e nem parar em frente ao portão, porque o meu cachorro não vai me receber e nem, tão pouco, me sorrir latindo...
Não tenho malas ou pertences para colocar no chão. Andarilho não tem malas, só traz consigo sentimentos de um passado presente que logo se torna distante.

Em nenhum lugar que for haverá retratos meus, na parede. Pois, até mesmo, o quadro e a minha melhor foto que fiz se rasgou.
Não há razão para voltar, não agora. Aí, ainda, não é o meu lugar. Não posso voltar para coisas que deixei, pois, por andei, nada abandonei ou larguei. Há não ser uma joia, que tenho selada em meu coração.

Sei que quando eu retornar, se eu retornar, nada vai estar como era antes. As coisas não vão estar mais no mesmo lugar. Tudo se modificou, o tempo não perdoa nada, os meus cabelos já estão a embranquecer.

 É, realmente, tudo se modificou. Eu não consigo nem mesmo correr como antes...

Mas um dia quem sabe eu abra a porta devagar e talvez, deixe a luz entrar primeiro. Só sei que, não haverá retratos meus na parede e nem se quer ele estará amarelado pelo tempo.  O tempo não amarela ninguém, só nos faz envelhecer o corpo.

Claro que, quero dois abraços abertos à minha espera. Os braços da minha mãe, ela nunca vai deixar de esperar por mim... Essa é aminha única certeza! E se ela pergunta por onde andei, falarei...

Sei que ela vai me abraçar como no passado da minha infância. Sei que não terei palavras para contar os dias que longe andei. Pois, muitas vezes, lágrimas ou sorrisos falam mais profundo do que palavras. No fundo, ela sabe que é a única coisa importante que por lá deixei.

Um outro tesouro importante que tinha, o destino levou. E, já faz quase nove anos.

Ele sempre será uma lembrança terna em meu coração. Se não fosse pelo amor e cuidados que um dia ele teve por mim, eu hoje não estaria aqui.

Ao abrir a porta da minha casa, não o encontro mais na sala assistindo TV. E, quando chego perto da minha velha rua, não o vejo mais sentado no banquinho debaixo do pé de manga conversando com os amigos – onde ele gostava de permanecer por horas e horas. Lá está o lugar vazio que ele deixou quando partiu.
O meu saudoso pai tanta saudade deixou que até um o melhor amigo meu, que quando ele partiu logo, também, se abateu e mais uma vez o destino levou...


Então, quando o dia chegar de eu para casa voltar, eu não vou parar em frente ao portão. Pois, o meu cachorro – Sansão – não vai me sorrir latindo. Porque, infelizmente,  ele também morreu.

Poesias & Crônicas de Márcio Nato