A história de Gustavo Henrique

Gustavo Henrique tem 28 anos, é solteiro e desde muito cedo aprendeu a se virar sozinho. Trabalha atualmente como recepcionista em um hotel da cidade onde vive. Gustavo foi criado por seus avós paternos. Seus pais biológicos se separaram quando ele ainda era um bebê, então o rapaz foi criado aos cuidados dos avós.

A mãe de Gustavo sempre tentou se fazer presente na vida do filho, mesmo que demorasse para ir ver o garoto, quando ela ia, sempre estava disposta a ajudar o pequeno. Diferente do pai, que nunca demonstrou qualquer interesse em cuidados para com o menino. Na infância, ele fora uma criança muito doente. Mesmo sem querer, Gustavo vivia parando nos hospitais.
Ele cresceu acreditando piamente que o pai biológico nunca se importara com ele. Aos treze anos de idade o jovem sofreu um acidente que quase lhe ceifou a vida. Ao sair do colégio, com um grupo de amigos, Gustavo fora atingido em cheio por um automóvel. Com o impacto da batida, foi arremessado para cima, girou duas vezes no alto, ao cair bateu as costas o capô e com a frenagem do condutor, foi arremessado contra o asfalto. O menino bateu com o rosto algumas vezes no chão. Faltou apenas um palmo para que batesse com a cabeça no meio fio.
O condutor do veículo, por um momento, hesitou em prestar socorro, mas ao ver o adolescente jogado ao chão, sentiu pena e resolveu socorrê-lo. Gustavo foi parar, entre a vida e a morte, em um hospital da cidade.
Uma tia, que soube do acidente, foi até o local onde ele estava internado para lhe fazer companhia. Já era madrugada quando, na cadeira de rodas, Gustavo avistou do lado de fora do hospital o seu tio João, que o procurara desde que soube do acidente. O tio, que era casado com um de suas tias, estava há mais de 12 horas sem dormir, pois o procurava desde que soube do ocorrido.
Gustavo perguntou por seu pai e foi informado que o mesmo estava em casa dormindo. Naquele instante, o menino pensou: “de fato, ele não se importa comigo”.
O tempo passou. Dois anos mais tarde, necessitando de material escolar, Gustavo, aconselhado pela avó, foi até a casa do pai. No entanto, o pai foi grosso e ainda fez um gesto obsceno para o garoto. Mais uma vez, ele pensou: “por que esse cara me colocou no mundo?” Desse dia em diante, ele decidiu que nunca mais pediria nada ao pai, ainda que fosse uma bala.
Atualmente, percebendo o crescimento profissional e pessoal do filho, o pai vem tentando se aproximar do rapaz. Ele bate no peito e com orgulho diz para todos os seus amigos: “esse é o meu filho!”, porém, ele nunca se preocupou com a educação do menino. Gustavo tem percebido a tentativa de aproximação de seu pai biológico. No fundo, no fundo, Gustavo não gosta nada de que o pai fique se gabando, dizendo que ele é o seu filho, exibindo-o como se fosse um troféu, sendo que na verdade, quem teve todo o trabalho de criar e educar, foram os avós paternos.
Mesmo distante, a mãe de Gustavo sempre tentou de alguma maneira ajudar no desenvolvimento do filho, totalmente diferente do pai que estava ao lado, mas sempre fez questão de ficar distante.
Em seu íntimo, Gustavo verdadeiramente não gosta nem de conversar com o pai. Ele sente em seu coração todo o desprezo que o pai lhe deu quando ele ainda era uma criança.
Flashes de recordações vêem em sua mente de todas as vezes que o pai o ignorou e o maltratou. O rapaz não entende o porquê de, agora, o pai vir lhe procurar, se quando ele mais precisava, ele sempre o ignorou.
No entanto, Gustavo não é mal educado e, embora não demonstre amor pelo pai, ainda assim, tenta não o maltratar, porém, Gustavo afirma para todos que o seu verdadeiro pai, aquele que o criou, já estava morto.
Quando alguém diz que ele é filho de Ronaldo, Gustavo responde: ”ele só soube me fazer”. A mágoa do rapaz é notória. Por mais que ele não queira todo o desprezo que enfrentou na infância, sai pelos seus poros. Mesmo não querendo demonstrar tal amargura, é notória a insatisfação do rapaz quando alguém o remete ao pai.
Estaria o pai de Gustavo querendo se aproximar para corrigir um erro do passado ou apenas por interesse em querer buscar a ajuda do filho? Essa pergunta era latente no coração do rapaz.
Sempre que tinha a oportunidade, Ronaldo tentava se aproximar do filho. Aonde podia, ele se exibia e falava do filho com orgulho, como se ele tivesse sido o responsável pela educação do rapaz. Mas quem conhece a história de Gustavo, sabe bem que o pai nunca foi capaz de lhe dar um alfinete, ainda que enferrujado.
No lugar de Gustavo, o que você faria? Aceitaria a aproximação do seu pai, ou manteria distância? O que você faria?

Poesias & Crônicas de Márcio Nato